A Região Missionária Sacramentina
(Extraído do Livro “O movimento da Boa Nova” – Capítulo 5, de Ricardo Torri de Araújo – Editora O Lutador, Belo Horizonte, 1999)
No dia 12 de outubro de 1977, festa da Nossa Senhora Aparecida, Dom Henrique Froehlich, bispo da Prelazia de Diamantino, criou a Paróquia Santa Cruz, desmembrada da Paróquia Papa João XXIII, de Colíder, abrangendo toda a nascente cidade de Alta Floresta. Desde então, o Pe. Geraldo se mudou para a nova circunscrição, ainda hoje, confiada aos missionários sacramentinos. Nesta freguesia – que, com o tempo, se desdobrou em mais duas paróquias, Bom Pastor e São Paulo Apóstolo, constituindo, assim, a chamada Região Missionária Sacramentina –, o Pe. Geraldo permaneceu até o início de 1994. E, nessas terras, realizou aquele que é, aos nossos olhos, o seu trabalho mais admirável.
A Colonização de Alta Floresta
Presidida por um empresário paulista, o Sr. Ariosto da Riva, a colonizadora Integração, Desenvolvimento e Colonização S/A – ou, simplesmente, INDECO – constituiu, no extremo Norte do Mato Grosso, três novas cidades: Alta Floresta, Paranaíta e Apiacás.
Antes, porém, de lançar-se ao norte mato-grossense, o empresário fundou, no extremo Sul do mesmo Estado, as cidades de Naviraí, Carapó e Glória de Dourados – hoje, prósperos municípios do Mato Grosso do Sul. Em seguida, em meados da década de 60, o Sr. Ariosto atuou no Vale do Araguaia, em São Félix, e participou da fundação da imensa fazenda Suiá-Missú. Por fim, em 1972, venceu uma concorrência pública, promovida pelo Governo Estadual, adquirindo uma grande extensão de terras do município de Aripuanã. Justamente com o objetivo de colonizá-la, conforme o obrigava a licitação, o Sr. Ariosto fundou, neste mesmo ano, a sua firma colonizadora.
Em 1974, na altura do quilômetro 642 da Cuiabá-Santarém, tomando-se a direção d’oeste, teve início a abertura da J-1, a estrada de acesso à região onde nasceu Alta Floresta. À frente das máquinas, um grupo de homens vinha abrindo a “picada”, desenhando, assim, a trajetória da rodovia em construção. Como ponto de apoio, às margens do rio Teles Pires, nas proximidades da balsa de travessia, a INDECO montou um acampamento provisório.
No ano seguinte, deixando para trás o obstáculo fluvial, as máquinas da firma de colonização atingiram a área da futura cidade, a 148 quilômetros da BR-163. No local onde, hoje, funciona o Batalhão da Polícia Militar, foi erguido um novo acampamento, que fornecia alimentação e pousada para os visitantes e primeiros compradores. Por fim, no dia 19 de maio de 1976, com a chegada dos colonos, as primeiras plantas para a construção de casas particulares foram liberadas: estava fundado o povoado de Alta Floresta.
Três anos depois, no dia cinco de maio, Alta Floresta foi constituída em distrito do município de Aripuanã. E, em tempo recorde, menos de quatro anos após a sua fundação, no dia 18 de dezembro de 1979, a cidade foi emancipada, tornando-se um município independente.
No começo, os moradores de Alta Floresta eram, quase que em sua totalidade, migrantes do Paraná, principalmente, da região Nordeste. Em sua maior parte, eram homens e mulheres dedicados à lavoura, em busca de melhores condições de vida para suas famílias. Possuíam já, no seu Estado de origem, uma certa extensão de terras, mas sabiam que, para a geração seguinte, o que tinham era insuficiente. Com o dinheiro da venda de suas propriedades, comprava-se, no norte mato-grossense, um lote 10 vezes maior – eis o que atraía aquela gente. “O que animava os colonos era o desejo de ver os seus filhos em cima do que era deles, na esperança de dias melhores para a família” (ARAÚJO,Geraldo da Silva, Pe. “Curriculum Vitae” do Pe. Geraldo Silva Araújo, SDN. Alta Floresta:1992.p.3.[Inédito]), escreveu o Pe. Geraldo.
Chegando à “gleba Indeco” – como era conhecida então -, os colonos tinham a ventura de encontrar uma colonizadora responsável e cumpridora de suas obrigações. Além da rodovia J-1, construída com recursos próprios, a firma abriu mais de mil quilômetros de estradas vicinais, dando acesso às diversas áreas loteadas. Vale o registro: a INDECO retardou a entrada dos colonos em um ano, aproximadamente, a fim de terminar a construção destas vias, não permitindo que se repetissem em suas terras as tristes cenas da gleba Cafezal (Colíder).
Para a implantação do sistema educacional, a firma contratou o Prof. Benjamin Pádua – como disse alguém, uma espécie de “secretário particular da educação” da empresa colonizadora. Na sede do povoado, foi construída a Escola de 1º e 2º graus “Vitória Furlani da Riva”. Na zona rural, por sua vez, a cada seis quilômetros, a INDECO construiu uma “escolinha”: feita de madeira, com piso de alvenaria e telhado de eternite – ou seja: em muito boas condições. Segundo o Sr. Ludovico da Riva, filho do Sr. Ariosto, o modelo adotado na gleba Indeco se inspirou naquele inaugurado em Colíder – relatou-nos o Pe. Geraldo.
Quanto ao professorado, recrutado e treinado pelo Prof. Benjamin, nos primeiros anos, a empresa se responsabilizou pelo seu pagamento. E, deste modo, todo colono recém-chegado encontrava, além da estrada de acesso ao lote adquirido, uma escola em condições de funcionamento a, no máximo, três quilômetros de distância. Em síntese: encontrava a infra-estrutura básica para recomeçar a sua vida.
Isto não significa que não houvesse desafios a superar. Uma das maiores adversidades que os primeiros colonos encontraram foram os mosquitos, em particular, os popularmente conhecidos como “pium” ou ”porvinha” – insetos muito pequenos e de picada bastante molesta. Embora presentes ao longo do ano todo, os mosquitos eram mais numerosos na “estação das águas”, isto é, de novembro a abril, época de chuvas abundantes. O tormento tinha início às nove horas da manhã, aproximadamente, estendendo-se até o entardecer. Para se defenderem, os colonos untavam a pele com óleo repelente e usavam, em terra de grande calor, camisas de mangas compridas. Para se ter um pouco de paz durante o almoço, usava-se produzir fumaça dentro das casas a fim de afugentar os intrusos. O incômodo só começou a ceder alguns anos depois,com o avanço da derrubada das matas. No começo, porém, foi um verdadeiro suplício para os desbravadores.
Outra adversidade encontrada pelos pioneiros – de um modo especial, na zona rural – foi o medo das onças. Embora não tenha havido registro de alguma ocorrência grave, não era incomum, nos princípios, ouvi-las urrar durante a noite ou encontrar sinais de sua presença próxima. Estava-se, afinal, em plena floresta amazônica. Seja como for, não faltou coragem, aos primeiros colonos, para enfrentar e superar as dificuldades apresentadas pela natureza bravia, ainda em estado virgem, daquele norte mato-grossense.
O projeto que animava a INDECO consistia em fazer de Alta Floresta uma cidade agrícola – para o que, contava com a suficiente fertilidade das terras que lhe foram confiadas. Em fins de 1978, porém, foi descoberto ouro, em quantidade abundante, nas proximidades do novo povoado. Imediatamente, a cidade foi invadida por milhares de garimpeiros, oriundos, principalmente, do Pará e do Maranhão. Embora tenha trazido consigo alguns benefícios, o surgimento do garimpo representou um verdadeiro transtorno para o projeto idealizado pela colonizadora.
Por um lado, em razão de súbita e generosa injeção de riqueza, a cidade de Alta Floresta foi grandemente impulsionada. O comércio foi muito favorecido, algumas agências bancárias foram atraídas, dezenas de hotéis, churrascarias e lanchonetes surgiram de uma hora para a outra. O “corre-corre” era tamanho que o comércio passou a funcionar aos domingos. Para que se tenha uma idéia, em meados da década de 80, a cidade chegou a estabilizar mais de 100 mil habitantes.
Mas, os benefícios foram pagos por um alto preço. Com o surgimento do garimpo, veio também a violência. Os garimpeiros, como se sabe, têm as suas superstições. Uma delas reza que, para uma “fofoca” produzir ouro, é necessário que ela seja “regada” com sangue (No linguajar próprio dos garimpeiros, “fofoca” é o lugar onde se descobriu ouro). Outra crendice do mesmo gênero estabelece que, no garimpo, deve vigorar a “lei do cão”; a Lei de Deus não pode ter vigência (A “lei do cão” é a lei do diabo, oposta à Lei de Deus, que ordenou: “Não matarás”). Em resumo, acredita-se, deveras, que, se não houver mortes, não aparece ouro – ou o ouro pára de aparecer. E, em conseqüência, os garimpos são, de fato, muito violentos. Qualquer pequena desavença é resolvida à bala. Além da violência nos próprios garimpos, houve também conflitos entre os agricultores e os garimpeiros – seja porque estes invadiram as terras daqueles, seja por motivos de natureza análoga (Convém assinalar que as informações acima fornecidas nos foram dadas por agricultores, tradicionais desafetos dos garimpeiros. Por esta razão, é possível que esses depoimentos retratem, mais do que a verdade, os preconceitos dos colonos a respeito dos garimpeiros).
Outra singularidade do modo de pensar do garimpeiro o leva a crer que, para continuar encontrando ouro, ele precisa gastar todo o dinheiro que ganhar. Se ele começar a poupar, a descoberta do metal precioso cessa. Isto faz do garimpeiro um perdulário. Ele “não pergunta o preço” e “não leva o troco”, como se diz. Ora. A conseqüência dessa prática para a economia local é óbvia. Encorajado pela prodigalidade do garimpeiro, o comerciante aumentou, abusivamente, o preço das mercadorias – para o desespero do lavrador, que não tinha como acompanhar o ritmo inflacionário imposto.
Ao lado da elevação do custo de vida, também o aumento dos casos de malária e o surgimento de bordéis são contemporâneos do aparecimento do ouro. Nas proximidades do trevo, por exemplo, surgiu uma casa de nome Saramandaia, notório local de prostituição. (Esta casa protagonizou, não obstante, um divertido episódio ainda hoje lembrado por moradores mais antigos de Alta Floresta. Quando chegou à cidade, o Pe. Geraldo possuía um Jeep muito cobiçado por Osvaldo “Piloto”, hoje Osvaldo “Boiadeiro”. Como, porém, o padre não desse sinal de que pretendia se desfazer do veículo, o comprador valeu-se de um argumento irretorquível para convencê-lo – contou-nos o Sr. Luiz Antônio Bazzo. Tomou-lhe o carro emprestado e o deixou estacionado, um dia inteiro, à frente do Saramandaia. Encurralado, o Pe. Geraldo se viu obrigado a vender-lhe o automóvel. Passou, então, para um fusca que, na expressão do Sr. Paulo Jacinto, “rodou até desmanchar”. Com efeito, já na sua fase final, o assoalho do veículo era calçado por um tijolo).
Contudo, o maior malefício trazido pelo garimpo ainda não foi mencionado. Em 1978, grandes lavouras de café, cacau e guaraná, estavam já iniciadas. Com o surgimento do ouro, inúmeros colonos abandonaram as plantações a fim de se tornarem garimpeiros. No caso dos pequenos proprietários, houve como conciliar as duas atividades: com freqüência, metade dos membros da família partiam para o garimpo, enquanto a outra metade zelava pela plantação. Os fazendeiros, por sua vez, não tiveram outra saída: vendo-se, de súbito, sem mão-de-obra, tiveram que pôr fogo na lavoura iniciada e transformá-la em pastagem para o gado.
O Sr. Ariosto insistia: “O nosso ouro é o cacau, o café, o guaraná”. Mas, não houve jeito. A possibilidade de se ganhar muito dinheiro em pouco tempo era, para a maior parte, uma tentação irresistível. Deste modo, o projeto idealizado pela INDECO foi bastante alterado. E, em boa parte, a agricultura cedeu lugar à pecuária.
O auge do garimpo se estendeu até meados da década de 80. A partir de 1986, aproximadamente, o ouro de superfície começou a dar sinais de escassez. O golpe de misericórdia veio em 1990, com a sensível queda do valor do metal amarelo no Governo de Fernando Collor de Melo.
Hoje, em Alta Floresta, o garimpo é um assunto encerrado. A cidade perdeu população, o comércio precisou recuar um pouco, enfim, houve um rearranjo geral. E, em novos termos – agora, sem ouro -, Alta Floresta se empenha em retomar o caminho do desenvolvimento traçado por seu colonizador.
O Atendimento Religioso dos Funcionários da INDECO
Em julho de 1974, a caminho da Serra do Cachimbo, na altura do quilômetro 642 da Cuiabá-Santarém, o Pe. Geraldo deu com abertura, à esquerda, de uma nova rodovia. Informou-se e veio a saber que se tratava da J-1, estrada que daria acesso ao local onde surgiria Alta Floresta, para além do rio Teles Pires. Nessa oportunidade, o Pe. Geraldo teve uma intuição: “A minha direção é essa” – pensou. Era a segunda vez que isso ocorria. Muitos anos antes, quando a BR-262, que liga o Espírito Santo ao Mato Grosso, cortou as terras de Minas Gerais, passando pelas proximidades de Manhumirim, um sentimento análogo lhe acontecera.
De volta do Cachimbo, depois de atender os militares do 9º BEC, o Pe. Geraldo adentrou a estrada nova. A partir daí, residindo ainda em Sinop, passou a dar assistência religiosa mensal aos operários da INDECO. Algo em torno de 60 a 90 homens trabalhavam na abertura da rodovia. O Sr. Valdir Telles de Oliveira, o “Telinho”, estava lá. “A presença do Pe. Geraldo foi muito importante. Ele pregava a Palavra de Deus e isso trazia muita união para o pessoal que estava desbravando a mata”.
Em 1975, as missas foram celebradas no acampamento que a firma colonizadora ergueu às margens do rio Teles Pires. O Pe. Geraldo já morava em Colíder e visitava mensalmente as obras da INDECO. Numa dessas visitas, ele ficou conhecendo o Sr. Ariosto da Riva.
O empresário estava no meio dos seus funcionários, ajudando a remover um tronco de árvore atravessado no meio da estrada. Depois da missa, os dois homens conversaram. Discorrendo sobre o seu projeto de colonização, o Sr. Ariosto disse que, apesar dos grandes desafios a superar, ele “...sentia que havia uma luz divina o iluminando” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja católica em Alta Floresta. Folha da Floresta. Alta Floresta, mar. 1989. Cf. ______. Processo de colonização realizado pela INDECO. Alta Floresta 83. Alta Floresta, 1983. p.9. Edição comemorativa). Teve início, nesta ocasião, um relacionamento amistoso entre o missionário e o colonizador, baseado na admiração mútua. O Pe. Pirovani chamou a atenção para um fato curioso a este respeito:
“O Sr. Ariosto vinha de conflitos com o clero, com Dom Pedro Casaldáliga, no Vale do Araguaia; e o Pe. Geraldo, por sua vez, vinha de conflitos com o colonizador de Colíder [o Sr. Raimundo Costa Filho]. Ou seja, os dois tinham tudo para não dar certo. Mas, muito pelo contrário, se entenderam e, mais do que isso, colaboraram”.
Mais tarde, o Pe. Geraldo descreveria o diretor-presidente da INDECO como “um colonizador muito humano, dotado de sentimento religioso”; ou ainda “...um homem de visão, um líder de muita experiência, arrojo e persistência” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja católica em Alta Floresta. Folha da Floresta. Alta Floresta, mar. 1989). De sua parte, o Sr. Ariosto “...via e apreciava o trabalho da Igreja [...] [realizado na pessoa do Pe. Geraldo]. Era visível o [seu] entusiasmo [...]ante o nascimento e crescimento de muitas comunidades que iam aparecendo na gleba”( ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. Para o livro de Tombo da Paróquia Santa Cruz. Alta Floresta: 1992. p.11. [Inédito])
O Acolhimento dos Primeiros Colonos
Os primeiros colonos a chegar em Alta Floresta foram os membros da Família “Polica”. Eles ocuparam um barraco de encerado, às margens da J-1, nas proximidades do novo acampamento da INDECO. Uma semana antes de partirem de Terra Roxa, no Paraná, todos os componentes da família assistiram à missa e se confessaram, certos de que, tão cedo, não voltariam a receber os sacramentos. No dia 22 de maio de 1976, porém, qual não foi a sua surpresa e alegria ao receberem a visita do Pe. Geraldo!
Surpresa maior teve o Sr. Érico Antônio De Carli. Proprietário de uma serraria, ao receber a visita do Pe. Geraldo, não acreditou que se tratasse, deveras, de um sacerdote. “Nesta altura, padre aqui?! Em absoluto! Onde é que já se viu, no meio desse matão?! Padre?!” – exclamou. Incrédulo, pensou que o visitante fosse um malandro, um vigarista ou coisa do gênero. E, com base neste juízo, estava decidido a expulsar o recém-chegado da sua propriedade. Foi necessário que o Pe. Geraldo lhe mostrasse o “clergiman” – indumentária própria dos sacerdotes católicos – a fim de convencê-lo de que falava a verdade. “Foi uma surpresa muito grande ver um padre ali. Não tinha nada feito; não tinha nenhum barraco; não tinha nada. Nada, nada!”, contou-nos o pioneiro.
A sua desconfiança não era, porém, gratuita. Ao verem um padre já maduro enfrentando, ao lado dos primeiros colonos, todos os sacrifícios do desbravamento, houve quem pensasse que o Pe. Geraldo fosse um “penitente” – isto é, que estivesse, por meio da busca voluntária do sofrimento, “pagando” os seus pecados.
A partir do mês de junho de 1976, os colonos passaram a chegar em maior volume. Oriundos do Sul do país, especialmente do Paraná, deixavam para trás parentes e amigos e toda uma organização social, já estruturada, que lhes dava tranqüilidade e segurança. Vinham de caminhão com a família, alguns animais e a mudança. Traziam também provisões para os primeiros meses, além de sementes e mudas para a constituição de suas roças e pomares. A viagem era longa e penosa; os colonos percorriam mais de três mil quilômetros para chegar a Alta Floresta. Não raro, viajavam por cinco ou seis dias consecutivos.
“Da. Teonília, esposa do colono Aurelino Rosendo [...], referindo-se à viagem para[...] [Alta Floresta], assim se expressou: ‘Quando viemos para cá, gastamos quatro dias de viagem. Quase perdi o juízo porque não sabia para onde estava indo com meus filhos. Só via aquelas bocas de mato fechado, assim, lá longe, na curva do caminho, e, depois, a estrada continuava enfiando pelo mato sem fim” (o grifo é nosso) (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe .- Processo de colonização realizado pela INDECO. Alta Floresta 83. Alta Floresta, 1983. p.13. Edição comemorativa.), escreveu o Pe. Geraldo.
Num mesmo dia, passaram a chegar dois, três caminhões de mudança. Com freqüência, num mesmo caminhão, vinham três, quatro, às vezes, cinco famílias. Na medida em que chegavam, tomavam direções diferentes, conforme o local do terreno que haviam adquirido. O caminhão – via de regra, fretado – levava os colonos até a sua propriedade, descarregava a mudança, fazia a manobra e voltava, deixando-os entregues ao desconhecido. “Daí o sentimento de insegurança, com freqüência, transformado em pavor, sentido, sobretudo pelas mulheres e crianças” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja de minha comunidade. Alta Floresta: 1983. p.1. [Inédito]), explica o Pe. Geraldo.
Os colonos chegavam com disposição para o trabalho e muita esperança. Contudo, os desafios que encontravam – não obstante a infra-estrutura oferecida pela INDECO – eram muito grandes. Por isso, não era incomum o desalento. “Muita gente ficava desesperada; dizia que ia voltar”, contou-nos Da. Isabel Francisca de Castro, esposa do Sr. Antônio Barbosa de Castro. “Se eu pudesse voltar para trás, no mesmo caminhão de mudança, eu voltava”, admitiu Da. Francisca Martins Venâncio. “Em momentos como aquele, percebe-se o que significa para aquela gente simples, mas de fé profunda, a presença do padre...” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja de minha comunidade. Alta Floresta: 1983. p.1. [Inédito]), observa o Pe. Geraldo.
“Lembro-me que, um dia, estava realizando o meu trabalho pastoral na região das estradas central e 1ª Sul [...], quando cruzei um caminhão de mudanças já retornando para a cidade. Fui, então, fazer uma visita a esta família recém-chegada. Quando cheguei ao local, eles estavam sentindo o peso do isolamento, estavam meio atordoados. As mulheres e as crianças estavam chorando e os homens cortando alguns troncos para fazerem um barraco para passarem a noite. Falei que era o padre da região e que estava ali para dar-lhes conforto espiritual. No início, eles não acreditaram que fosse realmente um padre. Mas, depois, tudo correu bem” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja católica em Alta Floresta. Folha da Floresta. Alta Floresta, mar. 1989).
Numa outra ocasião, no final de uma estrada, na região onde surgiu a Comunidade Nova Esperança, o Pe. Geraldo visitou uma família recém-chegada. As mulheres, desconsoladas, choravam. Anos depois, diriam brincando: - “ Ô, ‘seu’ padre! O senhor nos viu chorando, mas os homens choravam também escondidos no mato. O senhor nos viu chorando aqui, no meio da estrada. Os homens se escondiam no meio do mato para chorar também”, contou-nos o Pe. Geraldo.
“Muitas vezes, ouvi exclamações de alívio e vi lágrimas de contentamento naqueles primeiros encontros com as famílias dos colonos recém-chegados. O medo desaparecia, os corações se iluminavam, era a alegria” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. Processo de colonização realizado pela INDECO. Alta Floresta 83. Alta Floresta, 1983. p.14. Edição comemorativa). O alívio era tamanho que, mais de uma vez, ao se apresentar como padre, os colonos desceram do caminhão e se ajoelharam no chão.
Logo que chegavam, a primeira providência a ser tomada consistia em erguer um barranco. “Às vezes, [este era feito com] os móveis cobertos com um encerado; outras, um rancho construído com madeiras cortadas às pressas e, não raro, apenas uma coberta sem proteção dos lados, feita com folhas de palmeira” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. Processo de colonização realizado pela INDECO. Alta Floresta 83. Alta Floresta, 1983. pp.13-14. Edição comemorativa). O Pe. Geraldo “...chegava, abordava os caminhões de mudanças, conversava com todos, participava da refeição da família e dormia em qualquer canto do mesmo barranco”. Dizia que ali estava “...para, em nome da Igreja, viver com eles, participar de suas aspirações, ajudá-los, iluminando seus passos com a luz da Palavra de Deus” (ARAÚJO,Geraldo da Silva, Pe. “Curriculum Vitae” do Pe. Geraldo Silva Araújo, SDN. Alta Floresta:1992.p.4.[Inédito]).
Nas visitas mensais que passou a fazer à região de Alta Floresta, o Pe. Geraldo sempre encontrava gente nova. As moradias improvisadas iam se multiplicando aqui e ali, às margens da estrada ou em alguma clareia aberta no meio da mata.
“Visitando esses barracos, eu me apresentava como sacerdote que atendia a região. O colono anunciava com alegre entusiasmo: - ‘Fulana, é o padre!’ A mulher para os filhos: - ‘ É o padre, menino, toma benção!’ Vinha, então, toda a família parecendo não acreditar. O ambiente passava a transpirar piedade. Tinha-se a impressão de se estar realizando um ato litúrgico. Sentia-se Deus presente. Foram momentos de emoção. Guardo deles recordações que me fazem bem. Para aquela gente de fé, a presença do padre no meio deles era alguma coisa que Deus havia mandado. Trazia tranqüilidade e segurança. Colonos que estavam desanimados criavam novo ânimo. Quantos não me dizem hoje: - ‘Padre, foi o senhor que nos animou a ficar. Já estávamos dispostos a voltar. Depois que o senhor nos visitou em nosso barraco, ficamos animados outra vez. Hoje, estamos muito contentes aqui. Veja lá a roça, o café, o pomar; olha ali as vacas, os porcos, tudo isso aí” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. Processo de colonização realizado pela INDECO. Alta Floresta 83. Alta Floresta, 1983. pp.14-15. Edição comemorativa), escreveu o Pe. Geraldo.
Com efeito, não há exagero em se dizer que a presença do Pe. Geraldo, naqueles primórdios da colonização, em muito contribuiu para que as primeiras famílias não esmorecessem face às dificuldades encontradas. “O Pe. Geraldo segurou muita gente em Alta Floresta”, garante o Sr. Luiz Antônio Bazzo. “[O trabalho religioso iniciado por ele] Foi o que segurou a gente, o que nos dava esperança de uma vida melhor. Não só para nós, mas para todas as famílias. É o que dava ânimo, trazia conforto”, admite Da. Matilde Pope Lotti.
Nas conversas com os colonos, assim como em suas pregações, o Pe. Geraldo tinha sempre uma palavra de consolo e encorajamento. Dizia, por exemplo, que, com o avanço do desmatamento, os mosquitos desapareceriam, que as famílias conseguiriam prosperar. Enfim, como disse o Sr. Júlio Giacomin, “...ele alimentava a esperança dos que chegavam”. Transmitia ânimo, força moral aos que davam sinais de fraqueza.
A Profa. Maria Irene Marques Callichio Santos chegou a pensar em nem mesmo descer a mudança do caminhão. Alguns amigos haviam voltado e era essa também a sua disposição.
“Mas, a gente encontrou uma pessoa que nos deu muita força. É o Pe. Geraldo. Cada mudança que chegava, ele estava lá pra receber. [...] Ele nos visitou e falou pra gente: ‘Olha, não vai ser fácil. Mas, aqui vai ser um lugar bom, vocês vão conseguir realizar o sonho de vocês, a terra é produtiva’. [...] A gente teve força pra encarar todas as dificuldades por causa dele. [...] Ele estava do lado da gente. [...] Nem que eu viva 100 anos, eu nunca vou esquecer. A presença dele no meio da gente, a força que ele nos deu logo que a gente chegou aqui”, relembra-se, com gratidão, a Profa. Irene.
O auxílio trazido pelo Pe. Geraldo não se restringia, porém, ao conforto de natureza espiritual. Além disso, valendo-se das informações que obtinha aqui e ali, ele dava orientações de ordem prática para os recém-chegados. Aconselhava-os, por exemplo, sobre o que plantar, como faze-lo etc. Procurou advertir as famílias sobre a transitoriedade do garimpo, recomendando que não se abandonasse as lavouras iniciadas. Em resumo, nas palavras do Sr. Francisco Parente Chaves: “ O Pe. Geraldo se preocupava com todos os problemas. Religião, plantação, horta, criação – ele orientava. O que ele sabia, passava para os colonos”. O seu sonho, afinal, era mais do que simplesmente incutir-lhes vida espiritual.
“Quando viemos para [...] [Alta Floresta], um sonho animava a gente. Nós queríamos ver uma região bem estruturada, não só na parte religiosa [...]. mas também na parte social e econômica. Sempre quisemos ver os colonos independentes, em suas propriedades, com suas famílias” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. O colonizador de batina; a história continua. Folha de Londrina, 5 jun. 1986. Suplemento Especial).
Ainda sobre as suas aspirações, com a sensibilidade e beleza com que sabe manejar a pena, o Pe. Geraldo escreveu:
“Em momento como esse, de tanta esperança e busca, de tanto sofrimento e coragem, em que o homem sem terra procura colocar seus filhos em cima do pedaço de chão que comprou com dificuldade; diante de tanta insegurança e arrojo, de gana e suor, em que o colono procura definir seu futuro, a Igreja não poderia deixar de estar presente, ao seu lado, partilhando com ele as suas esperanças e lutas, molhando-se no mesmo suor cansado, sendo para ele uma companheira na caminhada, uma luz, um encorajamento; ajudando-o a vencer as incertezas e angústias, as dificuldades, os problemas, os mosquitos molestos e doídos, e a firmar-se entre estas matas, e a continuar caminhando na busca de ser mais gente, mais homem, mais liberto das muitas injustiças que sugam o sacrificado homem do campo e que deixam cada vez mais empobrecido e explorado [...] ou mais minguado o sofrido bóia-fria.
Há nisto gritante apelo de Deus, pedindo que seja amparado este homem que luta pela sua libertação. Luta rompendo o cipoal que enleia e emperra, abrindo clareiras onde possa respirar desafogado com seus filhos e dizer à sua mulher que ali ela pode fazer o galinheiro para suas galinhas onde quiser, porque aquilo ali é deles – dele, dela e dos filhos” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja no norte do Mato Grosso. Alta Floresta: 1984. pp.1-2. [Inédito])
As Primeiras Missas de Alta Floresta
Em toda a área colonizada pela INDECO, as primeiras missas foram celebradas pelo Pe. Geraldo. Isto inclui, além de Alta Floresta, Paranaíta e Apiacás. Falemos, contudo, de Alta Floresta, cidade em que o Pe. Geraldo não apenas começou o trabalho, mas também deu-lhe o desenvolvimento ulterior.
De início, no período de abertura da J-1, a eucaristia era celebrada ao longo na nova estrada, em locais diversos, debaixo das árvores ou em barracos cobertos com lonas ou palha de coqueiro. Em maio de 1976, porém, quando as máquinas atingiram a área da futura cidade, o Pe. Geraldo adotou o novo acampamento como local para as celebrações.
No dia 23 deste mês, celebrou-se aí a santa missa. E esta foi a primeira em terras de Alta Floresta. A oração litúrgica teve início às 19 horas e contou com a presença de umas 30 pessoas, aproximadamente, entre operários, compradores de terras e primeiros colonos. O altar foi improvisado na sacada de um dormitório e a assembléia ficou no pátio, ao relento. Desta data em diante, O Pe. Geraldo passou a rezar a missa todos os meses neste local, onde, hoje, em frente ao trevo, funciona o Batalhão da Polícia Militar.
A primeira missa celebrada, propriamente, na área urbana da cidade (Vale dizer que o acampamento supracitado ficava na entrada da cidade) aconteceu no dia 12 de setembro de 1976. o santo sacrifício foi rezado nos fundos do escritório da INDECO, que funciona, até hoje, no mesmo lugar, à sombra de uma colossal castanheira – que, mais tarde, o vento teve a infelicidade de derrubar. Duas ou três dezenas de pessoas estavam presentes.
Daí em diante a celebração eucarística mensal passou por um período de itinerância. O local onde funciona o Pré-Escolar, ao lado da Escola de 1º e 2º graus “ Vitória Furlani da Riva”, o Hotel Rose, hoje, chamado Estoril, e outros locais foram utilizados para a oração oficial da Igreja.
Em setembro de 1977, o Pe. Geraldo se mudou, definitivamente, para Alta Floresta. No Natal deste mesmo ano, a primeira igreja matriz da cidade, feita de madeira, foi inaugurada – quando ainda se encontrava em fase de construção.
“Era, então, uma grande coberta, com uma parte cercada de tábuas [sem ‘mata-junta’, nem porta nem janelas]; o piso ainda não aterrado, um lampião e um grupo de umas 30 pessoas, quase todas, homens. Foi comovente a celebração. Sentia-se Deus presente. O ‘Noite Feliz’ foi cantado com voz rouca – voz de homens, carregada de religiosa emoção” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. Para o Livro de Tombo da Paróquia Santa Cruz. Alta Floresta: 1992. p.12 [Inédito]), escreveu o Pe. Geraldo.
Por algum tempo, esta igreja também lhe serviu de moradia. Ao chegar de mudança, o Pe. Geraldo ocupou, inicialmente, uma pequena casa cedida pela INDECO, localizada no setor A. Em seguida, com a conclusão das obras, instalou-se na sacristia da igreja matriz antiga. Finalmente, mudou-se para a casa paroquial, construída já de alvenaria.
As Missas do Padre Geraldo
Mais importante do que as datas e os locais, é saber o modo como o Pe. Geraldo rezava – e ainda reza – as “suas” missas. Não só em Alta Floresta, não só no Mato Grosso, mas em todos os lugares em que passou e continua a passar.
Primeiramente, a acolhida. O Pe. Geraldo é, via de regra, o primeiro a chegar. O que lhe dá a condição de ir recebendo, pessoal e nominalmente, cada um dos fiéis. Quando o número já é suficiente, os cânticos do dia são repassados. Tem início, assim, uma espécie de “aquecimento”, de forma a se criar um clima de elevação do pensamento às coisas de Deus.
Há, por exemplo, quem não se incomode com a presença de cães no interior da igreja. Para o Pe. Geraldo, esse detalhe é importante. O que vai acontecer ali é santo. É preciso que também o ambiente físico seja guardado.
Enquanto fala, não admite que conversem. Interrompe o que está dizendo se algum ruído incomoda. Está falando, afinal, não para constar, mas pra fazer chegar a Palavra de Deus aos ouvidos e aos corações. Para tanto, se requer silêncio e atenção.
As mães cujos filhos choram, com a delicadeza necessária, pede-lhes que levem o infante para fora – quem sabe, ao ar livre, a criança não se sinta mais confortável? Naturalmente, corre-se o risco de magoar alguém. Certa vez, numa comunidade rural de Alta Floresta, a filha do Sr. Aurelino José Rosendo, mais conhecido como “Raça Boa”, ofendeu-se quando se lhe pediu que retirasse com o seu filho. Retirou-se, de fato, e foi para casa. “Mas o Pe. Geraldo foi na casa dela pedir perdão. E a levou pra igreja de novo. O Pe. Geraldo é desse jeito!”, contou-nos o “Raça Boa”.
Ainda sobre o silêncio, há um episódio que os membros da Família Carrara não esquecem até hoje. Segundo nos contou Da. Rosa Carrara Pereira, nas proximidades do local onde se rezaria a missa, havia uma panela de pressão no fogo. Produzia, como de hábito, o ruído de todos conhecido. Pois o Pe. Geraldo pediu que o utensílio fosse retirado do fogão, de modo a se poder celebrar, sem interferências, o santo sacrifício do altar.
Outro detalhe na composição do ambiente é a modéstia no vestir que o culto a Deus exige. O Pe. Geraldo não hesita em recusar a comunhão àquelas que se apresentam indevidamente trajadas. É lógico que isso acontece apenas uma ou duas vezes. A partir daí, já advertidas, não há quem experimente comparecer sem decência.
Ao leitor mais “moderno”, talvez pareça que estamos falando de um padre “enjoado” e “rabugento”. Não é essa a opinião de quem já freqüentou a suas missas. O povo, de um modo geral, lhe dá razão. E pensa assim não por conservadorismo arraigado, mas porque desfrutou do efeito de todas essas medidas. E o efeito é: a criação de uma atmosfera de grande piedade para a celebração do maior ato de que os mortais podem tomar parte. Da. Edi Kraemer, por exemplo, afirmou: “As missas do Pe. Geraldo são mais piedosas do que o comum. A gente sentia alguma coisa quando ele rezava a missa”. Sentia, sim – não há dúvidas. A presença do Sagrado.
Não se pense, porém, que, com isso, atingimos os píncaros da alienação. Toda a celebração tem os “pés” fincados na realidade vivida. As missas são invariavelmente rezadas pelas intenções cotidianas que a comunidade é convidada a apresentar.
Ensaiada a cantoria e apresentadas as intenções, têm início, propriamente, a celebração. Sobre os cânticos, ainda uma palavra. Em todo o norte mato-grossense, a fim de garantir participação máxima, o Pe. Geraldo sempre incentivou a escolha de cantos de todos conhecidos. A sua “marca registrada” sempre foi o “Bendito” – o único que ele mesmo “puxa”, com a sua voz inconfundível, logo após a consagração. Além deste, pode-se mencionar: “ Com minha Mãe estarei”, “ A nós descei divina luz”, “Eu vim para escutar”, “Senhor, nós ofertamos”, “Minha vida tem sentido”, “Louvando a Maria” etc. Ou seja, em sua maior parte, hinos bastante antigos e, por isso mesmo, acessíveis a todos. “E todos cantavam sem o livro na mão. Cantavam com o peito aberto. Era uma liturgia muito funcional e eu procurava adaptar o mais possível esta liturgia ao povo. Procurava mostrar-lhes que a missa devia ser a expressão de suas vidas” (ARAÚJO, Geraldo da Silva, Pe. A Igreja católica em Alta Floresta. Folha da Floresta. Alta Floresta, mar.1989), escreveu o Pe. Geraldo.
O objetivo era, justamente, que todos participassem. E o Pe. Geraldo sempre cobrou isso. A quem tem uma voz muito forte, pede que a modere um pouco, de modo que ninguém se sobressaia e o resultado seja mais homogêneo. De outra parte, aos silenciosos, pede que cantem também, mesmo que a voz não seja bonita. Segundo nos disse o Sr. Alécio Carrara, o Sr. Francisco Carrara, patriarca da família, não tinha o hábito de cantar. Passou a fazê-lo com o incentivo do Pe. Geraldo.
Outro elemento a se dar especial destaque nas missas do Pe. Geraldo são as suas homilias. Primeiramente, a duração: suas prédicas não são breves; não duram menos de 15 minutos. O conteúdo das mesmas, por sua vez, sempre foi previsível num aspecto: tratar-se-á de um comentário das leituras do dia, notadamente, do Evangelho. O Pe. Geraldo jamais ocupou o tempo da homilia com avisos, amenidades ou qualquer espécie de assunto alheio ao que a liturgia prevê para este momento. Ainda sobre o conteúdo, um outro aspecto sempre presente é o vínculo estreito do comentário feito com a realidade concreta vivida pelos seus ouvintes. Mesmo os temas de natureza “metafísica” são sempre traduzidos em suas implicações práticas.
Quanto à forma de comunicar a mensagem, não poderia ser diferente: uso de uma linguagem simples e compreensível. Quando se trata de falar de Deus, a linguagem existe, mais do que nunca, para a comunicação – não para o deleite estético ou para a ostentação de proficiência vernacular. “O Pe. Geraldo falava a linguagem do povo pequeno, a linguagem que o povo entende. E, deste modo, ia até o fundo do coração das pessoas. Ele trabalhava com a palavra que eu sei falar, que ela sabe falar e que o pobre lá do ‘fundinho’ da igreja também sabe falar”, atesta o Sr. Antônio Lotti.
Além do uso de um vocabulário simples, o comentário das leituras do dia é, via de regra, exaustivo. Nunca é feito às pressas, só para constar, como se não houvesse interesse no entendimento alheio. “O Pe. Geraldo pegava o Evangelho e explicava. Explicava até a pessoa entender”, relembra-se o Sr. Mauro Paulo Caioni. “Ele tinha um dom para explicar, para fazer as pessoas entenderem”, garante o Sr. Antônio Terhorst. “Toda palavra, toda semente que ele plantava, ele queria plantar com a mão. Queria que aquela palavra caísse no coração de cada um”, completa o Sr. Paulo Jacinto.
A homilia tem início, no mais das vezes, com uma retomada das passagens bíblicas anunciadas. Não raro, o Pe. Geraldo narra, novamente, com as suas palavras, de um modo vivo e expressivo, a principal leitura do dia – normalmente, o Evangelho. “Eu sentia que aquilo que ele estava falando estava acontecendo na hora. Ele estava falando lá de Jerusalém, por exemplo, e parecia que eu estava lá assistindo”, relata o Sr. Antônio Evangelista de Souza.
Além de fixar bem a passagem, todos sabemos que o estilo narrativo, muito mais do que o dissertativo, é capaz de capturar a atenção humana. Começar a pregação deste modo é, portanto, uma garantia de boa audiência. “O Pe. Geraldo deixava a gente olhando pra ele quando estava falando”, afirma o Sr. Ademar Lourenço. “Ele conseguia deixar o povo em silêncio para ouvir o que ele estava dizendo”, completa a sua esposa, Da. Maria Cleusa de Oliveira Lourenço.
Feita, contudo, a narração, segue-se, naturalmente, a mensagem – espécie de “lição” que o episódio relatado nos dá. Aqui, tem lugar as exortações – muitas vezes, veementes, com elevação do tom de voz – ensejadas pelo trecho bíblico considerado.
Outro recurso largamente utilizado durante a homilia é o diálogo com a comunidade. “A pregação do Pe. Geraldo, todo mundo gostava, porque era uma pregação calma, bem explicada e ninguém via o tempo passar. E ele também chamava a turma pra participar – fazia uma pergunta, pedia pra dar uma opinião etc.”, recorda o Sr. Francisco Parente Chaves. “O sermão do Pe. Geraldo era mais um diálogo com as pessoas. Todo mundo saía dali entendendo mesmo”, garante Da. Maria da Costa Silva, a Profa. Marina. “Ele incentivava bastante o pessoal. Fazia a pessoa participar, fazia perguntas. Ele mexia mesmo com o povo, fazia com que o povo se manifestasse, falasse”, relembra-se Da. Maria Luci do Nascimento Martins.
Ao final de suas homilias, o Pe. Geraldo tem ainda o costume de perguntar aos membros da comunidade qual foi a mensagem de que mais gostaram, o que mais lhes tocou o coração. Cinco ou seis pessoas sempre emitem opinião. E o resultado é uma breve revisão de toda a mensagem do dia – além de se constituir num “retorno” que o Pe. Geraldo recebe a respeito do êxito da sua pregação.
Em linhas gerais, essas são as principais características das missas rezadas pelo Pe. Geraldo. Como se vê, sem fugir do que a liturgia prescreve, sem nenhuma excentricidade, ele tem um modo todo próprio de celebrá-las. Por isso, no início desta seção, escrevemos as “suas” missas. De fato, onde quer que ele tenha passado, as pessoas falam nas missas “do” Pe. Geraldo.
A Formação das Primeiras Comunidades
Na área urbana de Alta Floresta, depois da construção da igreja matriz antiga, o primeiro templo a ser erguido foi a igreja da Comunidade Sagrada Família, no setor Industrial. O objetivo era organizar a Paróquia Santa Cruz nos moldes do Boa Nova. Ora, uma das características desse modelo pastoral, é a descentralização das atividades eclesiais relativamente à matriz. Desta forma, a igreja matriz seria a sede de uma comunidade, formada pelos católicos residentes nas imediações do centro da cidade. Os moradores dos diversos setores do núcleo urbano constituiriam, por sua vez, a suas comunidades locais, só se dirigindo à matriz por ocasião das grandes festas litúrgicas. Assim, em diversos pontos da cidade, começaram a surgir pequenas comunidades: a Comunidade Santo Antônio, no setor A, a Nossa Senhora de Fátima, no setor D, e assim por diante.
Houve quem – habituado ao modelo tradicional, centralizador - estranhasse aquela profusão de comunidades urbanas. De início, o Sr. Luís Gonzaga da Silva, por exemplo, achou aquilo um “excesso de zelo”. O Sr. Ademar Lourenço, por sua vez, era da opinião de que se estava construindo igrejas demais. “Depois que foi passando o tempo, é que eu comecei a ver o fundamento”, admitiu. Da. Ivanette Valle Bevilacqua deu, a propósito, um depoimento precioso a respeito dessa matéria.
“A gente se perguntava: ‘Por que tanta igreja? Alta Floresta não é tão grande assim; poderia ir todo mundo à matriz. É um absurdo tanta igreja’. Mas, depois, quando nós começamos a participar mais – de coordenação, de grupo de reflexão -, a gente entendeu o porquê de tantas igrejas. Porque, senão, formaria só uma liderança pequena na matriz, que coordenaria tudo, e os outros ficariam só na assembléia mesmo, só assistindo. E, do outro modo, tem trabalho pra muito mais gente, porque cada capela dessas exige uma equipe de coordenação, uma pastoral do batismo, uma pastoral familiar, etc. Então, tem trabalho pra mais gente, envolve mais pessoas. E as pessoas, quanto mais envolvidas neste trabalho, se sentem muito mais queridas, muito mais valorizadas do que [se sentiria, no caso de] só participar da missa dominical, voltar pra casa e pronto. Então, depois é que agente foi entender o porquê de tanta capela, de tanta igreja. É pra envolver mesmo o maior número de pessoas. O Pe. Geraldo sabia o que estava fazendo, realmente; a gente é que não sabia o que estava falando”.
Além de garantir espaço para um maior número de leigos, outra vantagem inegável deste modelo de organização paroquial é “a integração das pessoas nos bairros, na própria comunidade”, observa o Sr. Antônio Terhorst. “Lá no Paraná, onde morávamos, já éramos católicos, mas não existia comunidade. Aqui é que nós viemos a aprender a trabalhar e viver em comunidade”, completa o Sr. Ademar Lourenço.
Na zona rural, por sua vez, as comunidades religiosas começaram a surgir a partir das missas mensais que, desde os primórdios, o Pe. Geraldo passou a celebrar em diversos pontos da gleba. A primeira missa rezada na zona rural se deu no dia 27 de junho de 1976, às margens da J-1, com direção a Paranaíta, onde, mais tarde, surgiu a Comunidade do Bom Jesus da Bela Vista. Ao lado desta, entre as primeiras comunidades rurais a surgir, pode-se mencionar: Monte Santo, Nova Aurora, Mundo Novo, Paraíso, Nova Esperança, São José, Santa Cruz das Paineiras, Boa Esperança, Nova Alvorada, Bom Sucesso, Novo Horizonte e outras. (Note-se, a propósito, como os nomes de algumas dessas comunidades traduzem o estado de ânimo dos primeiro a chegar).
O procedimento era sempre o mesmo: feita a acolhida dos colonos, conforme acima a descrevemos, os recém-chegados eram convidados para a celebração da eucaristia – que, no mais das vezes, ficava marcada para o mês seguinte, num dia de semana. Na data marcada, “...todos o
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