(Reportagem de Ellen B. Geld publicada na revista Seleções do Reader’s Digest em setembro de 1981 – Tomo XXI nº 124 – pp 17 a 23)
(IMPORTANTE – Para melhor entendimento da história, atenção ao período desta publicação)
A iniciativa privada é a impulsionadora dessa criativa
experiência no coração da selva amazônica.
Se for bem sucedida, vai prover o sustento de pelo menos mil pessoas.
Ellen B. Geld
Nosso avião sobrevoava o interior de Mato Grosso; estávamos bem alto sobre o rio Teles Pires, sinuoso e cheio de ilhas arborizadas, quando o piloto mudou de rumo para sobrevoar uma estrada de terra estreita que se dirigia para noroeste, em direção às profundezas da selva. Por vezes, desaparecia sob o espesso manto verde de árvores e, no princípio, parecia que não ia chegar a lugar nenhum, mas logo se bifurcava com outras estradas e apareciam clareiras, onde se viam alguns abrigos toscos com telhados de lona ou colmo entre tocos de árvores caídas e queimadas, bem como plantações de cacau e café.
Minutos depois, aterramos numa minúscula pista no centro de uma notável colônia, 3.000km a noroeste do Rio de Janeiro. Onde há apenas oito anos nada existia, havia mais de 70 mil pessoas vivendo na cidade de Alta Floresta e nos arredores. Considero-as os brasileiros mais notáveis e importantes do nosso tempo. Alguns são oriundos do Nordeste, flagelado pelas secas e inundações; mas muitos deles labutaram durante anos como meeiros nas regiões central e sul do Brasil. Outros haviam trabalhado em pequenas plantações de café na rica terra vermelha do estado do Paraná, acabando por perder tudo em conseqüência das geadas destruidoras da década de 1970.
Vindos de toda a parte, eles amontoaram em cima de caminhões família, animais, ferramentas e mobílias, e partiram a caminho da floresta tropical da bacia amazônica – terra longínqua e terrível que constitui um enigma até para os cientistas e técnicos que melhor a conhecem.
A primeira e modesta recompensa pelo enorme risco enfrentado pelos colonos aconteceu em 1980, quando fizeram uma colheita de 250 mil sacas de café no valor de 10 milhões de dólares (50 sacas por cada 1.000 pés de café, o que é bastante superior à média nacional de 30 por 1.000), e uma colheita de cacau estimada em 1,4 milhão de dólares. O desbravamento prosseguiu velozmente, e, no final de 1980, haviam sido plantados 40 mil hectares de café e 10.500 de cacau, além de áreas menores de guaraná, mamão e arroz. Planejou-se uma plantação de borracha, e algumas pessoas com imaginação procuraram uma maneira de comercializar ouriços (os invólucros duros das castanhas-do-pará) para fins decorativos , fertilizantes e discos para freios de automóveis; de utilizar as bananas industrialmente; e de usar a papaína (fermento que se obtém depois de escarificar o mamão) para tornar a carne mais macia e a cerveja mais límpida.
Por ora as colheitas têm a primazia. Vão se passar muitos anos antes que a população de Alta Floresta esteja habitando casas de madeira e cimento, e só em 1982 se poderão ver as imensas safras que, segundo essa gente espera confiante, a nova terra produzirá.
Alta Floresta é produto da imaginação de Ariosto Da Riva, chefe da INDECO, S.A. (Infra-estrutura, Desenvolvimento, Colonização), empresa privada que faculta aos colonos os meios básicos de sobrevivência na maior selva do mundo. O Sr. Ariosto, um sexagenário alto e vigoroso, veio me buscar na escada do avião e, à medida que me levava através de Alta Floresta no seu caminhão, pude verificar quanta coisa havia mudado desde minha última visita, em 1979.
No limite da cidade, buldôzeres abriam ruas, ao longo das quais se empilhava toda espécie de materiais de construção. As centenas de casas que eu vira recém-construídas no ano anterior estavam rodeadas de cercas de madeira, flores e arbustos. Existem dois armazéns para reabastecimento, um salão de beleza, uma boutique especializada em vestidos de noiva, duas igrejas e um restaurante-bar onde os fazendeiros se reúnem para jogar sinuca nos sábados à tarde. Hoje, Alta Floresta possui uma escola ginasial de tamanho médio e 40 escolas primárias, a 8 km de distância uma das outras, nas estradas que levam às fazendas.
Ariosto Da Riva parece ser o homem certo para Alta Floresta. Sua vida tem sido uma aventura. Filho de fazendeiros de Agudos, estado de São Paulo, partiu aos 18 anos para Minas Gerais em busca de ouro e diamantes. O berço do seu primeiro filho foi um caixote de laranjas num sítio com telhado de folhas de palmeira e palha, na margem do rio Jequitinhonha; porém ele afirma que os “garimpeiros vivem de esperanças, e eu era um garimpeiro com ambições; descobri que o ouro e os diamantes só são compensadores se forem investidos em algo produtivo”.
Ariosto foi para oeste, para a região quase virgem do sul de Mato Grosso, e amealhou uma fortuna transformando as terras em plantações de café e fazendas de gado, ao mesmo tempo em que se firmava sua reputação de homem leal e honesto nos negócios. Em 1973, quando o estado de Mato Grosso ofereceu a preços irrisórios terras para colonização da região de Aripuanã, Ariosto estava presente, levando numa pasta o sonho da sua vida.
Ele tinha visto colonos acorrerem à bacia amazônica, pelas estradas de Brasília a Belém e a Manaus, e para o estado de Rondônia; mas muitos povoados, a maioria instalada em terras distribuídas pelo Instituto de Colonização Agrícola, patrocinado pelo governo, falhavam por falta de apoio técnico e de estradas secundárias para o transporte de abastecimentos e de safras, para não falar da falta de escolas, hospitais, serrarias, armazéns, oficinas e outros serviços. Para Ariosto, tratava-se de uma tarefa que deveria ser levada a cabo com capital privado e muita imaginação.
“A minha idéia”, conta ele, “era estabelecer uma comunidade de fazendeiros cujas colheitas pudessem ser beneficiadas na própria região, criando empregos e riqueza no coração da Amazônia; mas eu sabia que tinha de fornecer a infra-estrutura necessária para que essa comunidade pudesse florescer.” Assim, formou-se em 1973 a INDECO, com 12 milhões de dólares em ativos da família Da Riva e um fundo de maneio de cinco milhões. O Banco do Brasil e alguns bancos privados concederam empréstimos substanciais a juros baixos, mas, com exceção da redução de taxas sobre os lucros da INDECO (benefício concedido a qualquer projeto de colonização da Amazônia), o apoio governamental tem sido reduzidíssimo.
Em 1973, uma auto-estrada governamental de 1.700km, que estava sendo construída no norte, de Cuiabá, capital de Mato Grosso, a Santarém, junto do rio Amazonas, chegou ao quilômetro 642. A partir daí, Ariosto construiu sua própria estrada, 147km em direção a oeste, até onde Alta Floresta viria a ser instalada – os primeiros de 700km de estradas utilizáveis todo o ano que a INDECO construiria sem ajuda do governo. A meio caminho, junto ao rio Teles Pires, edificou-se uma serraria a fim de produzir madeira para a construção de um barco. Do outro lado do rio abriram-se na selva cinco pistas de aterragem.
Abrir caminho através de densas florestas de enormes árvores de argelinas, mogno e castanha-do-pará é tarefa lenta, que tem de parar durante os seis meses da estação chuvosa. Só em maio de 1976, três anos depois do princípio da abertura da estrada, é que acabou de se desmatar a primeira clareira onde Alta Floresta iria ser construída.
Seu primeiro habitante foi Décio De Carli, que comprou a serraria, a transferiu para perto da cidade e, um ano depois (no decorrer do qual mandou buscar o pai e sete irmãos), acabou de pagá-la à INDECO, em madeira.
Com a madeira da serraria foi construído um hospital, uma casa para o pessoal da INDECO, um armazém, oficinas, garagens para tratores, uma britadeira e escolas. A família De Carli é hoje proprietária de três serrarias, que produzem anualmente cerca de 5.800m³ de madeira.
Uma vez instalados esses elementos essenciais da infra-estrutura em 1976, os colonos começaram a chegar. Pelo preço de um hectare no Paraná, um fazendeiro comprava em Alta Floresta três hectares, sem perigo de haver geada, pagando metade à vista e o restante em dois anos, sem juros. A maioria dos colonos comprou de 100 a 300 hectares.
As principais colheitas de Alta Floresta (café, cacau, guaraná) podem ser plantadas e cultivadas sem maquinaria pesada, a qual pode prejudicar o solo da floresta tropical. Além disso, desenvolvem-se na sombra da semifloresta, protegendo o solo das chuvas torrenciais e do sol escaldante. Ao contrário do cereal, que tem de ser cultivado em áreas enormes, as colheitas de Alta Floresta podem proporcionar a uma família um rendimento decente num pedaço de terra relativamente pequeno. “O melhor fazendeiro”, diz Ariosto Da Riva, “ é o que cultiva sua própria terra. Com o apoio técnico necessário, faz melhor trabalho que o proprietário ausente, para quem a exploração da terra é apenas um investimento entre muitos outros.”
Em relação à maioria dos projetos governamentais, o preço da INDECO (250 dólares por hectare) não é baixo; porém a maioria desses projetos não inclui estradas secundárias, sem falar em escolas, hospitais e outros serviços necessários, como materiais de construção, conserto de máquinas, sementes, fertilizantes e caminhões para transporte dos produtos.
A generosidade e a visão de Ariosto são quase lendárias. Um seu colaborador me contou que, quando os lavradores não têm dinheiro suficiente para completarem o pagamento da terra, “mesmo assim ele entrega o título de propriedade”. É mesmo? “Bem”, diz Ariosto sorrindo, “meus motivos são ao mesmo tempo práticos e humanos. Sem o título, eles não obtêm financiamento bancário; para mim, não há melhor garantia que um fazendeiro que passou meses limpando a selva e está finalmente pronto para plantar”.
José Lourenço da Silva é fazendeiro em Alta Floresta. Sua plantação no Paraná foi destruída pela geada que deu cabo de 80% da safra brasileira de café em 1975. Vendeu por 20 mil dólares os 10 hectares que tinha e comprou 153 em Alta Floresta por 15 mil. Fui com ele até sua casa provisória, de chão de terra batida, onde ele, que é viúvo, vive com a mãe de 90 anos. Numa casa semelhante, não muito longe, vivem sua filha, o marido e três filhos.
Por entre os tocos das árvores, a família plantou seis mil pés de café, que têm agora dois anos e chegam à altura do ombro de uma pessoa. Entre eles, há feijão, arroz e rícino, cuja excedente poderá proporcionar algum dinheiro à família até a primeira colheita de café, em 1981. Mais adiante estava sendo preparado terreno para mais cinco mil pés de café, dez mil cacaueiros e nove hectares de pastagens.
José Lourenço resumiu seu pensamento em poucas palavras: “Aqui não há geada; a terra é boa; há sementes e mantimentos quando é preciso. Necessitamos apenas de uma serra elétrica, uma enxada e braços fortes. Em Alta Floresta só se pode ser bem sucedido.”
Um dia, fomos de carro a Paranaíta, uma segunda cidade para a qual a INDECO está desbravando terreno, 67km a oeste de Alta Floresta. Dos 200 mil hectares que rodeiam essa nova cidade, 70% já tinham sido vendidos. Pelo caminho, vimos casas improvisadas onde famílias cozinhavam ao ar livre enquanto limpavam seus pedaços de floresta com serras elétricas.
A fazenda Caiabí, que pertence à própria INDECO, fica nessa direção. No meio da selva, altíssimas árvores de castanha-do-pará e 800 mil pés de cacau em várias fases de desenvolvimento alinham-se sobre as colinas. Os cultivadores plantam aqui pés de café das espécies arábica e robusta africana, numa base de 50% de participação nos lucros, e 20% para o cacau. O arroz, o feijão e o mamão que plantam entre os pés de café são exclusivamente deles. As bananas constituem outra colheita rentável, e são levadas como carga de retorno pelos caminhões provenientes de São Paulo.
A INDECO procura mercados estrangeiros, especialmente na Grã-Bretanha e na Alemanha, para o café cru e torrado e para o cacau; porém, numa época em que muita coisa ainda falta, um dos obstáculos principais é o transporte. O porto de Santos, no sul de São Paulo, dista 2.500km. Santarém é apenas uma cidade adormecida na margem do rio Amazonas, a 1.200km de Alta Floresta, por estrada; utilizá-lo como ponto de escoamento para exportação seria tão difícil e dispendioso como o foi a criação da própria Alta Floresta. Recentemente, Ariosto declarou ao ministro do Planejamento, Delfim Neto: “Conceda financiamentos e facilidades de exportação aos nossos lavradores e nós conseguiremos para o Brasil exportações anuais no valor de 500 milhões de dólares.”
Num mundo que tem fome, o Brasil dedica-se à produção de alimentos numa das maiorias extensões de terra virgem que existem.
Em Alta Floresta, isso se traduz em 30 milhões de dólares investidos pela INDECO, mais de 50 milhões pelos fazendeiros, negociantes, donos das serrarias, choferes de caminhão e todos quantos ali se estabeleceram durante os últimos quatro anos. É claro que, em última instância, o êxito de Alta Floresta dependerá do enigma que é a Amazônia. O fato de se saber com que resultados conseguirão os técnicos e os lavradores adaptar, a longo prazo, os métodos agrícolas conhecidos aos mistérios dessa floresta tropical será a determinante do seu desenvolvimento.
Se bem que o cacau seja nativo dessa região de Mato Grosso, as plantações de cacau não o são, e alguns peritos receiam que a plantação em sombra artificial, depois de limpo o terreno, não compense a perda de matéria orgânica e umidade que existiam na floresta primitiva. A sombra pode ser crucial, também, para o desenvolvimento do café. Alguns pés mostram sinais dos danos causados pelo calor, especialmente durante o período de dois meses do inverno, quando ainda chove pouco. Outro ponto controverso é a extensão que pode ser abatida numa área de floresta tropical sem que o equilíbrio ecológico da região seja afetado.
A INDECO gostaria de ter tido as respostas a essas e outras dúvidas antes de criar Alta Floresta, mas, como diz Ariosto Da Riva, “a única maneira de aprender é experimentando, e as melhores pessoas para tentar são aquelas que, dispondo dos utensílios essenciais e da melhor orientação agrícola possível, colocam tudo isso a serviço de uma terra que lhes pertence”.
É este o princípio básico sobre o qual uma grande comunidade de pequenos agricultores vem sendo erigida. Tal comunidade só pode funcionar, como crê Ariosto Da Riva, “através da iniciativa privada, com seu dinamismo e imaginação”.