2009 - Ano de grandes realizações!!
CABEÇA, EX-VICE-REI DO GARIMPO
  • ATENÇÃO PARA O PERÍODO DE PUBLICAÇÃO DESTA MATÉRIA
    (Matéria publicada na revista RDM – Ano III – nº. 23 – 2002 – págs. 12 e 13)
     
    Nem tente localizar Eliezio Lopes de Carvalho em Alta Floresta, através de informações junto às pessoas, porque a população não sabe quem é esse cidadão. Mas, se você perguntar quem é o Cabeça, a cidade em coro o conhece. Afinal, foi com esse apelido que ele se tornou um verdadeiro vice-rei na Pista do Cabeça, no ciclo do ouro no Nortão.
    Cabeça é um nordestino de 58 anos que se identifica por paraibano, mas se você tiver que apostar sobre sua identidade, crave maranhense, sem medo de errar. Caboclo criado nos baixões, ele é meio arredio no primeiro momento. Depois, se for com a cara do interlocutor, fala sobre algumas de suas proezas que viraram lendas na calha do rio Teles Pires.
    O garimpo tem dois lados: a miséria e a fortuna. Cabeça não se encontra na primeira opção, mas anda muito longe da outra, principalmente se levado em conta que ao longo dos quatro anos em que foi dono de uma pista, os garimpeiros que trabalhavam em seu subsolo extraíram 66 toneladas do ouro mais puro que se possa imaginar.
    Longe do batente e à espera do momento certo para retornar ao garimpo, o ex-dono de pista toca a vida numa atividade acanhada numa concorrida sala do bar de um parente, em Alta Floresta. Vaidoso, mesmo atravessando crise, não se descuida das unhas, traja sempre linho impecável, mantém os cabelos penteados sobre a imensa cabeça que lhe rotula e fala sobre riqueza com a naturalidade de quem bebe um copo d’água: “tive quatro aviões e estou lutando para reaver os 19 mil hectares de subsolo em torno da Pista do Cabeça”, revela.
    A história do garimpeiro Cabeça é parecida com a de tantos outros. No final dos anos 70, quando a febre do ouro invadiu o Nortão, não havia estradas de acesso aos garimpos. O único meio de transporte era o avião, e alguns homens tiveram a visão de rasgar a mata e construir pistas de pouso. Ao lado delas montavam verdadeiras vilas com infra-estrutura para atendimento à garimpagem.
    Tudo nesses lugares era dos donos das pistas: o lucro das cantinas, cabarés, lanchonetes, farmácias, participação na venda do ouro, e a cobrança dos pousos e decolagens escorriam para seus bolsos. Cabeça foi um deles, a exemplo dos Metralha, Padeiro, Cuiabano, Mané Pedro e tantos outros. A dele tinha 500 metros de extensão por 40 metros de largura, foi implantada em quatro dias, inaugurada em 2 de dezembro de 81 e se dava ao luxo de contar com hospital, escola para as 29 crianças do lugar e até uma cadeia. “Minha pista tinha duas cabeceiras operacionais”, observa com uma pitada de orgulho. A movimentação aérea era tão grande, que não raramente havia congestionamento do tráfego, embora sem registro grave de acidentes.
    Um acidente aéreo resultou num batismo de um cabaré: um monomotor chocou-se num dos prostíbulos do lugar, e entortou a construção que era de madeira. A irreverência popular não perdoou: tascou o apelido de “Casa torta”; esse nome permanece ainda hoje, embora o imóvel esteja vazio como a maioria das construções locais.
    A Pista do Cabeça funcionou de 81 a 85, quando a estrada chegou ao lugar. Nesse período, mais de 10 mil garimpeiros trabalharam por lá. Cabeça garante que desse contingente, somente três foram vítimas da “balária” – mistura de balas de revólver com malária –. Esse número pode ser bem maior, mas nem Cabeça nem ninguém toca nesse assunto.
    O vôo de Alta Floresta à pista durava 20 minutos e custava de quatro a seis gramas do ouro por garimpeiro a bordo, dependendo do momento. Dezenas de pilotos trabalharam por lá, “tinha muito comandante bom, mas o melhor de todos era o Gilbertinho (Gilberto Lopes, de Rondonópolis)”, confessa Cabeça, com um quê de saudade.
    Naquele ambiente rondado pela febre e pelas armas, movido pela força dos braços em busca de ouro, ainda assim seus moradores não perdiam o bom humor. Tanto assim, que batizaram de ‘Móia’ bêbado, um riacho afluente do Paranaíta. A escolha do nome não foi por acaso: ao invés de ponte para cruzar a água, havia uma pinguela, algo que convenhamos, não combina com embriaguez.
     
    Gente Famosa Cabeça era um dono de pista avançado no tempo. Na dele, havia hospital com médico e uma escola para as 29 crianças do lugar. “Toda semana o doutor fazia exame nas meninas das boates. Se alguma estivesse doente, não trabalhava”, recorda.
    Mas, saúde e educação não deram notoriedade à Pista do Cabeça. O que contava mesmo era a produção de ouro e os shows artísticos que ele promovia por lá. A breguice e a dor-de-cotovelo de Amado Batista, Waldick Soriano e José Augusto levaram muitos garimpeiros a lavarem o chão batido do clube local com cerveja em comemoração. Cantoras de renome a exemplo de Cláudia Barroso, também passaram por lá. Cavalheiro, Cabeça desconversa quando o assunto é Gretchen, à época, intitulada “Rainha do bumbum”, uma irrequieta morena que no balanço dos quadris e dos glúteos levava a garimpeiragem ao delírio.
    Os causos sobre os garimpos no Nortão e no Sul do Pará registram que Gretchen e as chacretes faziam shows de strip-tease nas boates das pistas. A Rainha da preferência nacional masculina teria se apresentado certa noite no Cabeça. Como paga por seus atributos tão generosamente expostos aos olhos embriagados de cachaça e luxúria dos machões do lugar – juram antigos garimpeiros – ela teve a parte mais cobiçada do corpo nu coberta por pepitas de ouro.
     
    Pista do Cabeça, hoje Os aviões sumiram no azul do céu de Alta Floresta. Os garimpeiros também se mandaram. Deixaram para trás rastros de degradação nas margens do lendário Paranaíta, que aos poucos a natureza recompõe. A vila murchou e por lá ficaram poucos moradores. “Ouro ainda existe, é tudo questão de retomar os trabalhos”, acredita o antigo dono.
    O apagar das luzes da Pista do Cabeça não foi o único da região. As demais também foram desativadas. Hectare a hectare a agricultura familiar vai ocupando o vazio deixado pelo ouro. Ao cabo das enxadas antigos garimpeiros recordam dos tempos das vacas gordas, época de se fazer e de se perder facilmente fortunas brotadas nos baixões da noite para o dia. Tempo de violência, de assassinatos brutais, de cabarés varando as madrugadas, da inclemência da malária. Páginas viradas dos primeiros passos de Alta Floresta.
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