2009 - Ano de grandes realizações!!
AS VILAS SURGEM DAS PISTAS
  • (Matéria publicada na revista “O Garimpeiro” – Ano I – Cuiabá –
    Dez. 1982 – nº. 1- pp 10 a 19)         
     
     
    A abertura dos garimpos é realizada de forma tal sem muita variedade: inicialmente os “garimpeiros pesquisadores” os de linha de frente, vão embrenhando-se mata adentro usando como recurso apenas seus facões que fazem as picadas no mato. No começo não passam de três homens, depois, chegam a somar até 200 homens (como foi o exemplo do grupo que descobriu o Garimpo Novo Cruzeiro, também conhecido como “Cabecinha”). Esses homens, depois de constatada a descoberta do ouro, recebem mantimentos e ferramentas atiradas pelas aeronaves que sobrevoam a região onde estão aglomerados, daí, preparam a abertura das pistas para a futura descida dos aviões, surgindo então o espaço que passa a ser conhecido no garimpo como “pista”.
    Nas pistas, além do campo para pouso, surgem também o comércio de manutenção, onde serão vendidos os mantimentos, as roupas, as ferramentas e todos os apetrechos necessários ao trabalho dos garimpeiros nas frentes de serviço: os baixões. Ali também surgem as residências, boates e pensões.
     
    Pista do Cabecinha
     
    Uma das pistas dos garimpos de Alta Floresta é a do Garimpo Novo Cruzeiro – conhecida como “Pista do Cabecinha”, pela alcunha de um de seus proprietários Eliezar Lopes Carvalho. O Garimpo de Novo Cruzeiro foi descoberto pelos garimpeiros pesquisadores “Zezinho”, Ribas e “Porrudo”, financiados por “Cabecinha”.
    Na região da Cabeceira do Rio Paranaíta, onde está localizado o Garimpo Novo Cruzeiro, a Pista do “Cabecinha” foi a primeira a ser aberta, sendo somadas a ela, posteriormente, outras tantas como Pista do Augusto, Pista do Carlinhos, Pista dos Metralhas, Pista do Cesário.
    Um dos prósperos comércios na Pista do Cabecinha é a venda de galinhas aos garimpeiros, que chegam nos aviões em média de três vezes por semana. Desenvolve-se também ali o intenso comércio de roupas feitas, fotografias, gêneros alimentícios, bebidas, redes, calçados, ferramentas e outros produtos.
    A diversão é marcada pela presença das quatro boates, cujo maior atrativo naturalmente são as belas mulheres sempre sorridentes e dos mais variados tipos físicos, que em parte alimentam as ilusões dos homens e abrandam a solidão que marca a vida do homem que está no garimpo por muito tempo. Os jogos, como a sinuca, e a bebida como a cachaça, o campari, a cerveja e o “wiskey” complementam o lazer na Pista do Cabecinha. Muitos comerciantes trabalham ao lado de suas companheiras e filhos, buscam realizar em pouco tempo o que não fizeram em outros lugares onde viviam. Há espaço para a vaidade, os garimpeiros tratam dos dentes; as mulheres embelezam-se nos salões e os casais se encontram para os romances, as poses para a fotografia ou para as refeições coletivas.
    Uma criança cresce em meio aos sonhos dos homens que trazem nos cabelos brancos a marca do tempo. Uma garimpeira aperta entre os dedos um cigarro em brasa, traz na cabeça um chapéu negro que combina com sua veste também negra e traz nas costas o remanchin que vai abrigar os alimentos para a manutenção durante o tempo que deverá ficar nos baixões. Um garimpeiro toma uma dose dupla de injeções “coquetel” aplicada sem muitos rodeios e sem muito medo sobre o rústico balcão da farmácia. Outro garimpeiro fazendo as vezes de eletricista revisa os fios esticados sobre um poste de madeira. O comprador de ouro tem diante de si a balança que mede a força do trabalho de cada um. As barracas se multiplicam como os homens, e a polícia em uniforme de combate, impõe a lei e a ordem, sem as quais tudo poderia ser diferente. Estas são cenas da Pista do Cabecinha, cenas de um garimpo que cresce pela força dos homens, pela abundância de seu ouro e pela fé de todos os corações que batem nos peitos de sua gente.
     
    Vila Garimpeira de Castanheira
     
    Gente! Veja só que cena legal, um mutirão de limpeza pública em pleno garimpo. A rapaziada numa animação maluca reunida faz a limpeza de uma Rua na Vila Garimpeira de Castanheira. E vejam só, um pessoal ótimo foi escolhido para a diretoria da Associação dos moradores, gente séria, minha gente! É assim que se começa uma civilização.
    Agora dá uma licencinha para apresentar umas garotinhas legais! Taí quatorze meninas e três amigos. É ou não é uma turma simpática?
     
    Pista do Carlinhos
     
    Na pista do Carlinhos a rapaziada anda numa boa, piloto bom tá aí! Um dia desses vão olhar para a fotografia e dizer: naquele tempo... vejam só como o tempo passa, isto aqui hoje é uma cidade! Será!?
     
    Pista dos Metralha
     
    Os que compram o ouro também vendem mercadorias e em todas as casas comerciais a balança de pesar está ao lado da máquina de somar. Os jovens estão presentes e trabalham como os garimpeiros. As camisetas com desenhos ao peito é idumentária que o garimpeiro não dispensa, mas há também os que preferem ficar mais à vontade e abrem as camisas ao peito ou simplesmente não as usam pelo intenso calor da região, o que não pode faltar mesmo é um bom chapéu de palha sobre a cabeça, para abrandar o calor e a luz do sol. “Lá no Maracanã o Flamengo continua sendo o mais querido, aqui no garimpo eu sou querido com a camisa do Mengo” – parece dizer o jovem que acena com o polegar um sinal de positivo. Descansar é ótimo, então vamos descansar minha gente! Se a féria foi boa vamos bebemorar com muita cerveja, mas um wiskezinho também consegue reunir muita gente em volta de uma mesa – estão vendo? A bomba estragou, todo mundo quer dar uma “força” para ajudar a reparar o defeito. A menina ajeita o cabelo para cativar os homens, as crianças acompanham suas mães e se trajam com a melhor roupa para uma pose ao fotógrafo, o homem de barba rala vestiu seu calção vermelho, a mulher de blusa vermelha posou com um relógio no braço esquerdo, mas a de blusa azul quis ser séria com os cabelos presos. A vista da pista está vazia de gente, os homens estão trabalhando; a pista está cheia de gente, os homens estão voltando. A pista dos Metralhas é só alegria e trabalho.
     
    Pista do Augusto
     
    Alegria, Alegria, minha gente, o auri-verde é o símbolo deste chão! Vamos lá, rapaziada! Esses garotos estão construindo o Brasil, abrindo novas fronteiras e a bandeira é esta aí: fé e coragem. Um dia desses dias essa máquina vai sair por aí fazendo vum... vum... vum!... Êta mundo grande! Haja pista pra pousar! Aqui no Augusto a moreninha de bermuda quer sair por aí a tiracolo num passeio legal. Bilú, bilú tetéia, veja só que gracinha de neném.
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