2009 - Ano de grandes realizações!!
A REALIDADE SONHADA POR ARIOSTO DA RIVA
  • (Matéria, Da Redação, publicada pela revista RDM – Ano III – nº 23 – 2002, pp. 10 e 11)
     
    Nos anos 70, o mosaico fundiário urbano de Mato Grosso iniciou seu mais arrojado processo de mudanças, com o surgimento de cidades no Nortão, Intervales, Noroeste e na faixa de fronteira com a Bolívia.
    Alta Floresta nasceu nessa época, fruto do pioneirismo do colonizador Ariosto da Riva, um calejado idealizador de cidades, e que antes implantara Caarapó, Glória de Dourados e Naviraí, em Mato Grosso do Sul.
    O projeto fundiário rural de Alta Floresta foi executado numa área inicialmente de 400 mil hectares comprada do Governo de Mato Grosso pela empresa Integração, Colonização e Desenvolvimento (INDECO), de Ariosto, no Vale do Rio Teles Pires, na região Norte mais conhecida por Nortão, na divisa com o Pará. Planejado para ocupação por pequenos, médios e grandes produtores, esse modelo de colonização despertou atenções em várias regiões do país. Mas sua viabilização somente se tornaria possível se na área fosse implantado um núcleo urbano para suporte aos moradores da região. Assim, surgiu Alta Floresta, num rasgo na mata, onde na tarde de 19 de maio de 1976, o topógrafo, Antonio Nunes Severo Gomes assentou o teodolito e iniciou a demarcação das ruas daquela que, anos depois, se tornaria a mais importante cidade do Nortão de Mato Grosso.
    Mas, para implantar a vila e assegurar a viabilidade de seu projeto de colonização, Ariosto precisava de estrada. O desafio era vencer 150 km de mata, cruzar o rio Teles Pires e outros rios menores, no trajeto do ponto escolhido para Alta Floresta, até Colíder. Dali, até o Km 642 da rodovia BR-163, a Cuiabá-Santarém, em Nova Santa Helena, havia uma estrada implantada pelo 9º Batalhão de Engenharia de Construção do Exército (9º BEC).
    Ariosto não tinha prática em construção de estradas e pagou caro por isso. Inicialmente contratou uma equipe, que não deu conta da missão. Depois de seis meses sem conseguir fazer o leito carroçável avançar pela picada, refez os planos, demitiu o pessoal que atuava na área e convidou para assumir o comando da empreitada o coronel aposentado do Exército, José Meirelles, que alguns anos antes, na condição de comandante do 9º BEC, executara com êxito a implantação da BR-163, de Posto do Gil, em Diamantino, à região da Base Aérea de Cachimbo, no Pará.
    Meirelles buscou no topógrafo Severo Gomes – seu braço direito na obra da 163 – o auxiliar que necessitava para levar adiante a estrada sonhada por Ariosto. Além de definir o trajeto da rodovia, Severo Gomes ainda executou o projeto arquitetônico da cidade.
    Chuva, sol, nada impedia o avanço da obra da estrada. Nem mesmo o Teles Pires foi obstáculo para a passagem dos tratores ruma à futura cidade: o coronel conseguiu por empréstimo junto ao Exército, portadas – embarcações militares para transporte de tanques e blindados, com grande capacidade de flutuação – que permitiram a travessia das pesadas máquinas, antes mesmo da instalação da balsa da INDECO, que antecedeu à ponte de concreto construída uma década depois pelo governador Júlio Campos.
    A vila começou pequena. Não passava de uma clareira na mata. Casas construídas com madeiras beneficiadas por uma serraria do primeiro morador do lugar, Décio de Carli, pipocavam entre os tocos das árvores tombadas. Alta Floresta ganhava assim, seu formato urbano, enquanto gente de todos os cantos do Brasil chegava e engrossava o contingente de pioneiros.
    A proposta de Ariosto era a colonização de sua área por pecuaristas e agricultores. Mas, o subsolo do Nortão guardava uma riqueza mineral que alteraria o processo de ocupação em seus primeiros anos: o ouro, que se tornou forte atrativo arrastando milhares de garimpeiros do Pará, Maranhão, Goiás, Minas Gerais e de outros Estados para Alta Floresta e demais vilas da região.
    As levas de garimpeiros resultaram na ocupação desordenada em parte da zona rural e na vila. Riquezas fáceis da noite para o dia, violência, doenças venéreas, cabarés abarrotados, intensa movimentação aérea para o transporte de pessoas, alimentos e equipamentos aos garimpos, supermercados apinhados de fregueses, camelôs a céu aberto vendendo praticamente de tudo, e caminhonetes e mais caminhonetes apinhadas de novos aventureiros despejavam suas cargas humanas pelas esquinas: Alta Floresta fervilhava.
    O colonizador se preocupava com o desvirtuamento de seu projeto e lutava para redirecioná-lo à sua proposta original. Antigos moradores afirmam que não foram poucas as vezes que garimpeiros blefados – jargão dos baixões, que significa sem dinheiro – ou mesmo pessoas que chegavam ao lugar sem as mínimas condições financeiras procuravam Ariosto em busca de ajuda, pedindo que lhes vendesse um lote rural fiado, em suaves prestações. Nessas ocasiões, o fundador da cidade mostrava seu lado mais humano, mandava medir uma área e cedê-la ao interessado, sem saber quanto nem como receberia pela mesma.
     
    DIFICULDADES Nos primeiros anos, não era fácil viver em Alta Floresta, pela falta de infra-estrutura do lugar. Também era difícil cobrir o percurso até Cuiabá, por rodovia. No rigor do período das chuvas, uma viagem de ônibus entre as duas cidades era uma aventura com data e horário para iniciar, mas sem tempo previsto para se encerrar: tanto podia demorar três dias ou uma semana. Ora os passageiros eram transportados, ora empurravam os veículos.
     
    CIDADE DE ALTA FLORESTA Em 1979, três anos depois de sua fundação, e em plena turbulência do garimpo a vila emancipou-se de Aripuanã. O ouro continuou sendo extraído até 1990, quando entrou em declínio. Paralelamente ao extrativismo mineral, a agropecuária avançou e fez do município uma das principais fronteiras da produção primária mato-grossense.
    Hoje, o ouro é página virada. O garimpo murchou e os garimpeiros partiram em busca de aventura em outras regiões, principalmente no Pará. Para trás ficaram algumas áreas degradadas que a natureza com paciência recompõe. Nem toda a herança é trágica: a economia de Alta Floresta é pontilhada de afortunados daquele ciclo: aqueles que souberam transformar o dinheiro fácil das pepitas em boas construções residenciais ou comerciais, em empresas, fazendas, serrarias e em outros investimentos.
     
    PRIMEIRO BEBÊ – Selma Neres da Conceição, filha do garimpeiro Alfredo da Conceição, o Cearazinho, e da hoteleira Divaneide Silva Conceição carrega sobre os ombros um pedaço importante da história de Alta Floresta: foi a primeira pessoa que ali nasceu. Selma é um dos capítulos da formação de Alta Floresta.
    Quando Selma nasceu, a energia elétrica da vila era gerada por uma caldeira que Ariosto comprou da Estrada de Ferro Araraquarense especialmente para assegurar a iluminação de Alta Floresta. E àquela época, a administração pública ficava a cargo de uma subprefeitura ali instalada pelo município de Aripuanã, ao qual a vila pertencia.
     
    CIDADE RELÂMPAGO – Três anos depois de fundada, alta Floresta se emancipou. Em 3 de julho de 1980, antes da posse do primeiro prefeito, Wanderlei Alves Pereira, que aconteceria em janeiro de 1981, o presidente da República, João Figueiredo, visitou a cidade e ouviu de seu fundador um pronunciamento otimista.
    O crescimento de Alta Floresta teve em Ariosto seu principal esteio. Por sua obstinação, visão futurista e seu papel no desenvolvimento do Centro-Oeste, o jornalista David Nasser, dos Diários Associados, deu-lhe o título de: “O Último Bandeirante”. A Assembléia Legislativa também reconheceu a importância do colonizador, e aprovou propositura do hoje prefeito e então deputado estadual, Romoaldo Júnior, que lhe concedeu o “Título de Cidadão Mato-grossense”.
    Figuras hoje destacadas da sociedade e anônimas construíram Alta Floresta no dia-a-dia. No manche do avião, horas e mais horas a fio, o piloto Dpemty Bandeira Fiúza cruzava os céus da região, pousava em pistas improvisadas e decolava ‘lambendo’ copas de gigantescas castanheiras. Na igreja, o padre Sebastião Sant’Anna da Silva pregava o Evangelho. Francisco Murilo Pinheiro, o Chico da Brahma, incentivava o esporte. O professor Benjamim de Pádua semeava salas de aula. O cirurgião dentista Itamar Negrão se desdobrava na restauração de dentes dos novos habitantes. Cada um, em sua atividade ou missão, ano após ano, deu sua parcela de colaboração para que hoje, em coro, todos possam dizer com orgulho “Alta Floresta – o futuro é aqui”.
     
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